quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

ENTREVISTA EXCLUSIVA À JORNALISTA DA TVI, ALEXANDRA BORGES



Alexandra Borges integra atualmente a equipa do Repórter TVI. São já imensas as reportagens do seu percurso jornalístico que foram premiadas. Ainda no passado sábado, 3 de dezembro, na II Gala da Inclusão, organizada pelo Instituto Politécnico de Leiria e pela Câmara Municipal de Leiria, para assinalar o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, na área dos média viu ser distinguida a sua reportagem «NAS ASAS DO DESEJO», onde fala da sexualidade na deficiência.

Leia agora a entrevista, em exclusivo, a Alexandra Borges.



1) A Alexandra é natural de Lisboa, todavia cresceu no Alentejo. O que guarda dessa infância?

Sim, sou natural de Lisboa mas felizmente cresci em Beja, no Alentejo onde se brincava às escondidas na rua sem medos e com a garantia de uma infância com muito campo, liberdade e felicidade!

2) Quando andava na escola qual o (a) professor (a) que mais a marcou?

A Dona Leonor porque foi quem me ensinou a ler e a escrever. Era rigorosa, dava reguadas mas mostrou-me que com várias letras podemos escrever o mundo…

3) Desde sempre quis ser jornalista?
Sabia que queria ser comunicadora. Poderia ter sido apresentadora de TV, animadora de rádio ou qualquer outra coisa…desde que lidasse com o público! O jornalismo foi surgindo na minha infância como o caminho mais interessante e hoje digo que não tenho um emprego, nem um trabalho, mas um privilégio que me dá muito prazer!

4) Durante a sua infância quem eram os jornalistas que idolatrava na TV?

Miguel Sousa Tavares, Margarida Marante e Barata Feio…todos pela capacidade de comunicação e pelas grandes reportagens que assinavam.

5) Onde se forma?
No único curso de Comunicação Social que havia em Portugal…o da Universidade Nova, na altura, muito teórico, chato e virado para a imprensa escrita!

6) Qual foi o seu primeiro trabalho em jornalismo?
Não me lembro…mas recordo-me que um dos primeiros foi uma ama de acolhimento da segurança social de Vila Franca de Xira que tinha ao seu cuidado 2 irmãos e “matou” (por falta de auxilio e negligência) a menina de 5 anos e foi para a cadeia. Quem deveria ter ido para a prisão eram as técnicas e psicólogas da segurança social que colocaram os irmãos em casa da ama sem sequer a investigarem e, durante um mês, foram feitas várias denúncias escritas por maus tratos e os irmãos foram assistidos por várias vezes no hospital! Era uma morte evitável que me revoltou e que ainda hoje me indigna…pelos vistos, as técnicas da segurança social, continuam a dormir tranquilas…é o país que temos!

7) Como e em que ano surge a oportunidade de vir trabalhar para a TVI?
Comecei na TVE, como produtora e, quando surgiram as privadas fui convidada para as 3 e, na altura, optei por ir para o telejornal da RTP1 onde, pelos vistos o José Eduardo Moniz acompanhava de perto o meu trabalho sem eu nunca me ter apercebido…quando foi para a TVI, convidou-me e foi uma honra trabalhar com ele!

8) Qual foi a primeira grande reportagem que assinou na TVI?

Foi um acaso… Acho que foi um caso de subtração de menores…um pai que, se fechou num quarto de hotel com a filha de 3 ou 4 anos porque a mãe da menina não o deixava ter contactos com a criança. Recebi o telefonema na redação da TVI cerca das 13h e a grande reportagem (25 minutos) estava acabada às 20h e pronta para ser emitida…

9) Como nasce a reportagem de investigação em televisão?

A ideia, normalmente, parte do jornalista mas tem que ser aprovada pela direção de informação. Depois seguem-se muitos contactos informais e recolha de documentação para escolher os entrevistados, o ângulo de abordagem e um fio condutor que ajude o telespectador a entender a história…a etapa seguinte são as filmagens, visionamento do que se filmou, escrever e organizar a história e montá-la com um editor de imagens…a fase final é a escolha da música e do grafismo. Há países em que levam 3 anos a fazer uma grande reportagem…por cá demoramos cerca de um mês!

10) Acha que o documentarismo tem uma duração definida?

Acho que deve ser decidido caso a caso… Não gosto de regras fixas!



11) Há situações em que tem de estar longe dos seus gémeos. Eles já pedem para ver a mãe na TV, ou passa-lhes completamente ao lado?

Odeiam tudo o que tenha que ver com a TVI porque sentem que lhes rouba a mãe…nunca lá quiseram ir e recusam-se a ver a mãe na TV… Estou a esforçar-me para que entendam que eu amo aquilo que faço, como desejo que, um dias, também eles se divirtam a trabalhar tanto como eu…Mas, quando os telespectadores me abordam na rua para me darem os parabéns pelo meu trabalho, sei que sentem um orgulho muito grande…

12) Uma das reportagens que a marcou certamente foi « Infância Traficada», onde esteve alguns dias. Como nasce esta reportagem?

Foi uma reportagem em que tive que lutar com a Direção de informação da TVI para a fazer mas que, quando voltei, foi o programa mais visto do dia, do mês e do ano…chegando a ultrapassar a novela de prime time. Foi um orgulho é certo e, só depois do sucesso deste trabalho, a Direção de Informação iniciou um espaço informativo autónomo de grande reportagem que se passou a chamar: Repórter TVI .

13) Como descreve a sua estadia no Gana?

Éramos 2. Eu e o repórter de imagem…as televisões estrangeiras viajam com grandes equipas, nas portuguesas não há dinheiro para isso, por isso, o jornalista tem de fazer tudo! O nosso dia de trabalho começava às 6 da manhã e ia até às 20h…o que fazíamos? Filmar, filmar, filmar, filmar o máximo de material que conseguíssemos porque só tínhamos 10 dias e para montar um minuto em televisão tem que se filmar uma hora!

14) Não encontrou entraves à sua reportagem no terreno, nomeadamente pelos exploradores dessas crianças?

Claro que sim mas isso são ossos do oficio…é preciso saber lidar com isso, protegermo-nos e não colocarmos a vida das crianças em perigo e esta era a minha maior preocupação!



15) O que aconteceu às crianças que os portugueses ajudaram a resgatar com a compra do CD “Filhos do Coração”.
Estão num orfanato americano a estudar e têm o seu futuro garantido durante os próximos 10 anos graças à ajuda dos portugueses…em breve algumas poderão partir para estudar em Universidades dos EUA. A organização Touch a Life Fundation e a Pam Cope em quem confio cegamente são quem cuida, diariamente, estas crianças!

16) Tem mantido contacto com essas crianças?
Claro…sempre. São pequenos grandes milagres. Já falam inglês, tocam instrumentos musicais, fazem teatro e, o que mais me impressiona é o brilho no seu olhar e o sorriso de felicidade que elas têm estampados no rosto cada vez que a organização me envia fotografias…SÃO MILAGRES…



17) Depois de dois anos, voltou ao Gana. O que encontrou?
Alguns milagres de crianças que tinham sido resgatadas por a nossa equipa 2 anos antes…algumas que tinha identificado desaparecerem e milhares que continuam a sofrer todos os dias! É duro!

18) Sentiu a necessidade de dar voz a essas crianças?
É o mais importante porque são essas vozes que vão marcar o futuro daquele país. Tenho a certeza que, daqui a uns anos, alguma dessas crianças será eleita presidente do Gana e ela própria acabará por erradicar o tráfico e a escravatura infantil do país…e esta é a grande reportagem que sonho fazer um dia!

19) Acredita que qualquer jornalista poderá fazer uma reportagem deste género?

Francamente, acho que há jornalistas que têm perfil para este tipo de trabalhos e outros que não têm…tal como eu tenho plena consciência que não tenho perfil para fazer cobertura de, por exemplo, casamentos reais ou visitas do papa e outros colegas meus são muito bons a fazê-lo!

20) Como vê o jornalismo do século XXI? Acha que se pode falar em isenção, independência?

Acho que é difícil para um jornalista ser independente…tem que se estar disponível para pagar o preço da independência…eu já tenho pago preços muito altos por lutar pela minha isenção, dignidade, verticalidade, rigor e independência de que não abdico, nem abdicarei nunca!

21) Que conselhos gostaria de deixar aos futuros jornalistas deste país?
Que a motivação pela qual querem abraçar esta profissão seja a correta…eu dei aulas na faculdade e muitos dos meus alunos queriam ser jornalistas para serem conhecidos, viajarem e terem uma vida de aventura! Se querem isto vão para pilotos e hospedeiras de bordo!

22) Gostava que um dos seus filhos lhe seguisse os passos?
Gostava que ambos os meus filhos mantivessem a sua identidade e amassem a sua profissão como eu amo a minha…sei que assim, seriam bons no que escolhessem fazer e, sobretudo, muito felizes!


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

ENTREVISTA EXCLUSIVA À JORNALISTA DA TVI, RITA RODRIGUES

Rita Rodrigues é actualmente jornalista na TVI. Casada com o jornalista da RTP, Daniel Pessoa e Costa, a pivô foi mãe recentemente, da pequena Matilde. Leia agora a entrevista, em exclusivo, à jornalista.

1) A Rita é natural de Aveiro. Como foi crescer e desenvolver laços de amizade com toda a sua vizinhança durante a infância?
Nasci em Aveiro e vivi lá toda a minha infância e adolescência. Do que os meus pais me dizem, sempre fui uma criança muito curiosa. Guardo as melhores recordações desse tempo. Lembro-me em especial dos Verões na praia da Costa Nova e das brincadeiras com os meus primos.

2) Ainda se lembra da sua brincadeira predilecta?
Adorava andar de bicicleta. Aliás, a minha mãe conta frequentemente a história da minha primeira bicicleta, que me foi oferecida num Natal. Tinha um cesto à frente e era cor-de-rosa. Além disso tinha uma campainha, que eu passava a vida a tocar. Os vizinhos é que não deviam achar piada nenhuma. Nos meus joelhos e cotovelos ainda há marcas das aventuras "a bordo" dessa bicicleta…

3) Quando entrou para a escola primária já sonhava com alguma profissão?
Queria ser advogada. Sempre fui muito palradora, não parava de conversar e de fazer perguntas (aqui está provavelmente a origem da minha tendência para o jornalismo). Já trocava argumentos e então dizia que queria ir para os tribunais, participar nos julgamentos. Alimentei esta ideia até tarde, mas por volta dos 15 anos percebi que o que eu queria mesmo era ser jornalista.

4) Ainda se lembra da sua série infantil preferida?
Eu sempre fui um bocadinho viciada em televisão e ainda me lembro de passar as manhãs de sábado agarrada ao ecrã a ver os desenhos animados. A minha série preferida era o Tom Sawyer. As personagens, as aventuras, aquela correria desenfreada do Tom atrás do comboio no genérico são inesquecíveis e por outro lado fazem-nos pensar como as histórias para crianças eram mais inocentes há vinte e tal anos.

5) Na passagem do ensino primário para o básico tinha alguma preferência entre português ou matemática?
Português, sem dúvida. Eu fazia as contas todas e sabia de cor a tabuada, mas do que eu gostava mesmo era de escrever composições e ler.

6) Com que idade lê o seu primeiro livro?
Tendo nascido na década de 80 fui muito influenciada pela colecção "Uma Aventura...". Já não sei qual foi o primeiro livro que li, mas recordo-me que o meu preferido foi o "Uma aventura no Palácio da Pena". Na mesma altura fiz uma viagem de estudo a Sintra e, por isso, o livro lembrava-me os sítios por onde tinha passado, mas impregnados de mistério.

7) Durante a adolescência tinha algum jornalista de referência, que gostava particularmente de ver na TV?
Em casa dos meus pais sempre houve uma companhia ao jantar, o Telejornal. Foi o primeiro contacto com o jornalismo. Quando comecei a ser uma espectadora mais crítica ficava agarrada a ver as entrevistas e debates da Judite Sousa, da Margarida Marante e da Maria Elisa. Curiosamente, ou não, são todas mulheres. Apreciava a forma como lideravam uma conversa, como estavam preparadas para falar de um tema, a subtileza com que conduziam os entrevistados para perguntas mais difíceis.

8) Se pudesse viajar numa máquina do tempo a que época regressaria?
Se calhar em vez de andar para trás, preferia espreitar o futuro. Sou muito curiosa! Mas, sinceramente, gosto desta época. Penso até que é um privilégio. As coisas que hoje são possíveis e tudo o que temos à disposição fazem desta época um momento muito especial. O mundo evoluiu muito rapidamente e em pouco tempo. Se eu recuar 15 anos, até ao liceu, apercebo-me de como tudo era diferente. Não tinha telemóvel, muito menos smartphone, a internet ainda só era uma promessa, não havia o google, nem as redes sociais. E se pensarmos, em termos profissionais, na forma como a tecnologia ajudou o jornalismo, então a diferença ainda é maior.

9) Ser jornalista era um projecto que marca já o seu secundário?
Sim, completamente. Quando escolhi Humanidades já era a pensar no curso de Jornalismo, mais tarde. Aliás, eu gosto de ver o futuro, minimamente, projectado. Dou margem para a espontaneidade e para as coisas próprias da vida e do tempo, mas paralelamente gosto de fazer projectos, de estabelecer algumas metas.

10) Acaba por se licenciar onde?
Aos 18 anos segui de Aveiro para Coimbra. Estudei na Faculdade de Letras. E quatro anos depois estava licenciada em Jornalismo.

11) Onde fez o seu estágio curricular?
Na RTP no Porto, que era, de resto, onde sempre quis estagiar. Foram quase 4 meses de grande aprendizagem e sobretudo um incentivo a continuar. Foi a confirmação de que tinha feito a escolha certa.


12) Como surgiu a oportunidade de vir trabalhar para o TVI 24?
Bem, a TVI surgiu depois de 5 anos de experiência. A seguir ao estágio trabalhei no Correio da Manhã, na delegação de Aveiro. Foi uma experiência marcante porque foi a chegada ao mundo de trabalho. No fundo, foi aquele momento em que se deixa, para sempre, de ser estudante, para se ser trabalhador e, por isso, mais responsável. Fez-me crescer enquanto jornalista e enquanto mulher, porque lidei com casos muito diferentes, alguns deles até com algum risco. De seguida surgiu a oportunidade de regressar a Coimbra para trabalhar na RTP e Antena 1. Fazia rádio e televisão simultaneamente e aprendi imenso. Tornei-me mais autónoma e também mais polivalente: lembro-me de estar com dois microfones na mão. Quando olho para trás penso que foi muito importante ter experimentado, praticamente, todas as formas de jornalismo. Só não fiz agência de notícias. Deu-me uma visão mais abrangente e ensinou-me as diferenças entre jornal, rádio e televisão. E a rádio é, sem dúvida, uma grande escola, porque trabalha-se, literalmente, ao minuto.

13) Que grandes ensinamentos retirou da formação que lhe foi ministrada pelo jornalista José Carlos Castro?
Foi muito importante porque eu nunca tinha estado num estúdio. Fazer directos na rua é uma coisa, apresentar as notícias é outra. Há imprevistos que é preciso antecipar, há emoções que é preciso dominar, há uma postura que é necessário ter e há erros que é obrigatório evitar. Mas em comum há um aspecto que é fundamental: simplicidade. Quanto mais simples for a nossa linguagem, mais facilmente a mensagem é transmitida. A eloquência deve deixar-se para outros registos. Minimizar os obstáculos entre jornalista e telespectador é primordial.

14) Uma mãe muito recente. Como é que uma jornalista consegue conciliar a vida sem horários dentro de uma redacção com o seu lado maternal?
Estou quase a saber como é. A licença de maternidade está a terminar e, em breve, regresso à redacção e àquela loucura de horários, em que só se sabe a que horas se entra e às vezes nem isso. Mas estou confiante de que vou conseguir conciliar o lado profissional com o lado pessoal.

15) A Matilde é uma menina calma ou está naquela fase em que começam já aparecer os primeiros dentes e as noites são longas?
A Matilde tem sido uma criança encantadora. Já há algum tempo que dorme a noite inteira, o que para praticamente todos os pais é um descanso. É muito sorridente e bem-disposta e faz, literalmente, os encantos dos pais, família e amigos.

16) Esteve também na emissão da manhã, na TVI, no Diário da Manhã. Durante esta fase a que horas se tinha de levantar para chegar à redacção?
Quando o TVI24 arrancou eu fazia dupla com o Bernardo Santos no Jornal da Manhã que ia para o ar às 6 da manhã. Nessa altura acordava às 3 horas da madrugada. Depois quando fui para o Diário da Manhã passei a acordar uma hora mais tarde, porque o jornal também começava uma hora depois. Foram dois anos difíceis, em que abdiquei de muito e pûs a vida profissional à frente da pessoal. Mas vi-os como um desafio e faço um balanço além do positivo. Só se consegue aguentar com muita disciplina, com uma rotina sem excepções e com muito apoio da família.

17) Os teóricos definem que a informação matinal é aquela que recorre maioritariamente aos principais jornais da imprensa escrita. Como se começam a apresentar as notícias tão cedo?
Hoje em dia as redacções debatem-se com um gravíssimo problema que é a falta de recursos financeiros que se reflecte desde logo nos recursos humanos. Há um ano, estava de férias em Nova Iorque, e por coincidência apanhei numa rua a gravação de uma entrevista para o 60 Minutos. Havia a jornalista, o repórter de imagem, dois produtores, uma pessoa para segurar os cabos e ainda outra para ir afastando as pessoas que passavam em redor. E sabe-se lá quantas mais pessoas estavam na redacção a trabalhar naquela entrevista. Esta realidade não existe em Portugal e quando as televisões não podem contratar todas as pessoas de que precisam, são os profissionais que têm de desdobrar-se em tarefas. A equipa do Diário da Manhã quando chega tem de perceber o que aconteceu durante a madrugada e actualizar e encurtar as notícias da véspera, porque os espectadores, de manhã, estão pouco tempo com a televisão ligada. Eu era sempre das primeiras pessoas a chegar. Só não tinha de ligar as luzes, porque elas não se desligavam. Gosto sempre de chegar com tempo para responder a eventuais imprevistos.

18) Também é nos horários matinais onde mais próximo do final vão surgindo notícias de última hora e muitas vezes não existe qualquer pivô no teleponto. É fácil improvisar neste tipo de notícias?
A experiência é fundamental juntamente com uma boa capacidade de comunicação e, claro, saber do que se está a falar. A primeira vez que isso tem de acontecer gera-se naturalmente algum nervosismo, mas passado algum tempo começa a ser uma rotina. Não são assim tão raras as vezes em que se recebe imagens, das agências de notícias, e depois em estúdio e em directo é necessário comentá-las, sem rede. Aconteceu-me muitas vezes. Recordo uma emissão especial, quando o Papa Bento XVI visitou Santiago de Compostela, em que durante duas horas e com a ajuda do Padre Rego, fui relatando os diversos momentos. Mas já que fala da questão do teleponto, posso dizer-lhe que na última vez que apresentei o Diário da Manhã houve um problema técnico e tive de fazer as três horas do programa sem teleponto. Cheguei ao fim completamente exausta, mas quando as pessoas me disseram que não se tinham apercebido de nada, fiquei com a sensação de "serviço cumprido".

19) Como vê o actual desenvolvimento das redes sociais na sua ligação com o jornalismo moderno?
Vejo-as como mais uma fonte e como mais uma ferramenta de trabalho. São fundamentais e ignorá-las é pôr o trabalho em risco, é não querer ver uma parte da realidade. Permitem-nos aceder a mais pessoas. É notável, por exemplo, como o cidadão normal pode transformar-se em jornalista, através do Skype e participar no relato de uma situação. Isso tem acontecido com cada vez mais frequência por exemplo em cenários de violência, como os recentes motins em Inglaterra, ou no decorrer de certos fenómenos naturais, como o tsunami no Japão. Por outro lado, as redes sociais também são hoje palco da notícia. Basta ver a frequência com que o Presidente da República se dirige aos portugueses através do Facebook.

20) Até ao presente momento qual foi a reportagem que mais felicidade lhe deu fazer?
Nos últimos tempos estive mais ligada aos directos e não tenho tido oportunidade de fazer muitas reportagens. Em contrapartida, a TVI deu-me oportunidade de explorar um género de jornalismo que eu adoro, que é a entrevista. Nos últimos dois anos, foram raríssimos os dias em que não entrevistei alguém em directo. Tive oportunidade de conhecer e falar com pessoas extraordinárias. Por exemplo, a política é uma área que me interessa e gostei muito de entrevistar alguns comentadores e analistas, sobretudo aqueles que fazem interpretações diferentes das mais ouvidas. E recordo-me de uma entrevista muito emotiva a uma mãe-coragem que escreveu o livro "O meu pequeno médico", no qual contava a história da luta do filho, uma criança de 10 anos, contra um cancro, que infelizmente o fez partir.


21) Para terminarmos que conselhos gostaria de deixar aos futuros jornalistas deste país.
Gostava de recordar-lhes uma máxima da sabedoria popular: "quem corre por gosto, não cansa". Hoje não é fácil sair da faculdade e conseguir um trabalho numa redacção, mas não se pode desmoralizar ao primeiro não. Não desistam, insistem. E quando tiverem oportunidade de trabalhar, empenhem-se ao máximo. Mostrem o que valem. Sejam originais nos vossos textos. Fujam das frases feitas. E pensem que quem lê, ouve ou vê os jornalistas não lhes está a dedicar 100 por cento da sua atenção, por isso "assaltem" a atenção do público e esforcem-se por passar uma mensagem fácil de captar.

domingo, 12 de junho de 2011

ENTREVISTA EXCLUSIVA AO JORNALISTA DA TVI, JOSÉ GABRIEL QUARESMA


José Gabriel Quaresma é jornalista na TVI na área do desporto juntamente com a sua esposa, editora de política, Carla Moita. Leia agora as revelações surpreendentes feitas pelo jornalista em exclusivo.


1) O Zé considera-se mais lisboeta ou ribatejano?

Sou de Vila Franca de Xira, mas fui nascer a Lisboa. Sou ribatejano, mas ter nascido em Lisboa dá-me o rótulo de “Alfacinha”, permite-me dizer, quando me dá jeito, “nasci na capital”, mas é a alma ribatejana que me enche de orgulho. Crescer naquela vila, (agora cidade) foi algo de maravilhoso. Fui criado pela minha avó, até ao dia da sua morte, pelo que frequentávamos os melhores cafés da cidade, comíamos sempre em restaurantes… fomos a primeira família a ter televisão em Vila Franca de Xira, a vila (cidade) tinha uma dinâmica muito especial, famílias burguesas que se misturavam com famílias de trabalhadores, a lota, as varinas, as brincadeiras nas ruas, íamos aos outros bairros atacar os nossos inimigos com flechas feitas com as varetas de chapéus-de-chuva velhos, fazíamos jogos de hóquei “sem” patins, os jogos de futebol no campo da “Mina” ou na “Rua de Trás”, com bolas feitas de espuma e couro, que o senhor Luís “Correeiro” nos dava, as corridas com carrinhos de rolamentos, os peditórios para as festas dos santos populares, as esperas de touros, os mergulhos no Tejo, e tanta, tanta coisa que não cabe neste texto, mas que faz parte do meu ADN. A minha namorada eterna…crescer em Vila Franca, naquela Vila Franca foi das coisas mais belas da minha vida.

2) Quando era mais pequeno, o que o fascinava mais na televisão, séries, programas… Quais e porquê?

Tantas…Tarzan, Pipi das Meias Altas, Sítio do Pica-Pau Amarelo, Bonanza, Uma Casa na Pradaria, Os Marretas, Rua Sésamo, Gabriela Cravo e Canela, Escrava Isaura, Sandokan, Verão Azul, Cornélia, 1,2,3, podia estar aqui um dia inteiro…na televisão em particular, nessa altura, nada me fascinava, nas séries e programas fascinavam-me as personagens, as histórias, eu seguia tudo aquilo, sabia a que horas passava, em que dias… naquela altura a televisão era a única alternativa à rádio, que me fascinava muito mais, enquanto plataforma de comunicação, sentia que havia na rádio, mais magia. Hoje sou jornalista, e há um nome da televisão, desse tempo e deste, que me marcou profundamente, Carlos Pinto Coelho.

3) Era bom aluno a português? E a Matemática?

Eu sempre fui bom e mau aluno. Os professores chamavam a minha mãe a escola e diziam-lhe “o seu filho é um dos melhores alunos da turma, mas é o que mais distrai os outros”. Por isso nunca fui além do “4”. Nunca tive um “5”. Era melhor aluno a Português que a Matemática, aliás, era melhor aluno a tudo, menos a Matemática. Isto no secundário, porque na primária era bom aluno nas duas disciplinas. Mas safei-me sempre. A Português, porque com o pouco que eu sabia, com a simpatia dos professores (ganha a custo – risos) e com o que a minha namorada escrevia na carteira (como tinha aulas na hora antes da minha turma deixava-me as respostas dos testes escritas na mesa) conseguia sempre ter acima dos 60%. A Matemática, havia o Luís Câncio que me fazia os testes…Hoje, sou muito melhor, sem dúvida, a Português que a Matemática.

4) Com que idade chega à conclusão que o jornalismo seria a sua vocação?

Aos 22 anos. Nunca tive o “sonho” de ser jornalista, aliás, nunca tinha dormido sobre o assunto. Mas a tal namorada de que falei antes (minha mulher) foi editora na Rádio Renascença muito nova, e nessa altura, seguia o seu trabalho, e comecei a apaixonar-me pelo jornalismo. Tomada a decisão, fui em frente, derrubei algumas barreiras e cheguei ao meu destino.

5) Onde se forma?

Até aí fui privilegiado. Fiz o primeiro e único curso de dois anos no CENJOR, Formação Geral em Jornalismo. Fui o primeiro em rádio, o segundo em televisão, o quarto em foto-jornalismo e o sexto em imprensa. Tive professores, do melhor que existe, fosse em disciplinas técnicas, ou em disciplinas complementares. Joaquim Furtado, Cesário Borga, Manuel Tomás, Dias Miguel, Mário Contumélias, Fernando Cascais, estes alguns deles. Fui um dos 13 apurados entre 1200 candidatos, mas só entrei à terceira tentativa. Sou do curso a seguir ao da Catarina Furtado. Velhos tempos. O CENJOR é, para mim, a melhor escola de formação de jornalistas, em Portugal. E eu, digo-o com orgulho, sou um dos “formandos” que ainda hoje, 19 anos depois, ainda sou lembrado por toda a gente. Isso enche-me de orgulho. Depois, formei-me lá, como formador certificado, e formei lá, muitos jornalistas que hoje estão na primeira linha. Fui professor de alguns nomes conhecidos da nossa praça.

6) Qual o seu primeiro trabalho em jornalismo?

Uma volta a Portugal em Bicicleta. Estava eu a começar, na Rádio Ribatejo, na Azambuja. Foi uma emoção!

7) Lembra-se do seu primeiro directo em TV. Que acontecimento estava a cobrir ou relatar?

Lembro-me perfeitamente. Foi em 1994, no Estádio Nacional, foi um directo para o programa Contra-Ataque, da TVI, que depois tive o prazer de o apresentar durante muitos anos. Era o Humberto Pereira, o cameramen que estava comigo. Era uma manhã de sábado, o Benfica treinava no Jamor, não me recordo porquê… Lembro-me que as palmas das mãos não secavam, ao contrário da boca, totalmente seca. A partir desse directo, a televisão em Portugal, nunca mais foi a mesma…

8) Dentro do jornalismo, considera-se um jornalista de desporto, ou gosta de fazer de tudo um pouco?

Há um ano e meio deixei a editoria de desporto. Fui convidado para a equipa de Grande Reportagem da TVI, onde permaneço. Durante os quinze anos que trabalhei no desporto da TVI, nunca me considerei jornalista de desporto. Há jornalistas, ponto. Há depois, jornalistas que ao longo da carreira vão trabalhando determinadas áreas e que, por isso, ficam mais conhecedores dessas matérias. Eu, gosto de fazer de tudo um pouco, e faço. Em televisão fiz praticamente tudo, directos, reportagens, falsos directos, apresentação, tudo o que se possa imaginar. Neste momento, por exemplo, numa altura de mudanças na TVI e de convulsão no país, quando estou disponível, faço de tudo um pouco. Hoje, cada vez mais, um jornalista deve especializar-se em nichos, mas como costumo dizer, um bom jornalista é aquele que é especialista, em generalidades. Mas foi garantidamente o desporto, a melhor escola que podia ter, e que tantas portas me abriu. Devo ao desporto a minha carreira.

9) Como surgiu a oportunidade de redigir o livro de Pedro Mantorras – Livro Directo?

Na altura, eu e o Pedro éramos muito amigos. Um dia, ele veio a um programa da TVI e fomos almoçar. Não falámos do livro. À noite telefonei-lhe e perguntei-lhe: “Pedro, toda a gente tem um livro, não queres que eu escreva o livro da tua vida?”, e ele respondeu de imediato que sim. Seis meses depois, saía o Livro Directo, que foi top de vendas durante dois meses. Só foi pena termos editado o livro com a PrimeBooks, uma pequena editora, que não funciona nada bem, não promove os seus autores, e é gerida por uma pessoa muito mal formada. Se tivéssemos escolhido uma outra editora, o Livro Directo tinha sido um enorme sucesso, mais do que foi. Aliás, a editora é tão, diria, pouco ortodoxa, que eu e o meu advogado estamos a preparar uma acção para apresentar em tribunal, pois o livro foi publicado em Angola, à minha revelia. Há muitos milhares de euros desse negócio por liquidar, mas isso é um assunto para os tribunais. Apenas dizer, que comecei a tornar-me próximo de Mantorras, e vice-versa, quando estava a recuperar de uma operação ao meu joelho, numa clínica onde estava ele e Nuno Gomes. Ficámos amigos, até ao momento em que ele participou com o editor na alta traição de que falei.

10) Como se encontra o processo gerado em torno desse mesmo livro, pelo médico Bernardo Vasconcelos? Acha que havia motivos para a abertura desse processo?

Se havia motivos ou não, não me cabe a mim dizer. Bernardo Vasconcelos sentiu-se ofendido e processou-me, a mim, ao Mantorras e ao Benfica, curiosamente, não processou a editora, vá-se lá saber porquê? Mas se Bernardo Vasconcelos entendeu ter motivos de queixa, já o tribunal entendeu o contrário, no que a mim diz respeito. O que vou contar, não é público, aliás, é a primeira vez que é tornado público, o juiz de instrução decidiu não me pronunciar, pelo que eu, não vou a julgamento, ao contrário de Mantorras, mas apesar de sermos ambos arguidos, tínhamos defesas separadas, aliás, segundo o que me foi dado a saber, Mantorras nem compareceu no tribunal, nem eu... Dizer também, que Bernardo Vasconcelos chegou a ser expulso, pelo juiz, da sala de audiências por comportamento incorrecto. Eu sempre estive tranquilo. Se tivesse ido a julgamento tinha provas materiais para apresentar, mas ainda bem que não fui. Em 19 anos de profissão fui seis vezes a tribunal por crimes relacionados com abuso de liberdade de imprensa. Nunca fui condenado.

11) Uma das situações pelas quais o Zé ficará conhecido, é sem dúvida a queda do seu pivot (dente) em directo. Afinal o que se passou? Tinha ido há pouco tempo ao dentista, sentia-o mexer…

Hoje dá vontade de rir… Na altura foi muito mau. Estava no décimo oitavo directo do dia, eram perto de três da manhã. Vale e Azevedo tinha acabado de ser eleito presidente do Benfica, era a loucura dentro do pavilhão. Quando ele entrou fomos literalmente abafados pela multidão, perdemos cabos, auriculares, perdi o contacto visual com o cameramen. Quando Vale e Azevedo termina o discurso, já estava eu a fechar o último directo daquela longa operação especial, cai-me o dente da frente. Era um pivot que durava há uns quinze anos. Não abanava, não dava sinais de querer cair, mas caiu. Às quatro da manhã vieram dar-me o pivot de volta, tinham-no encontrado. Eu estava sentado numa cadeira, no meio de um pavilhão vazio, a deitar contas à vida…a reacção foi, “tenho que assumir isto!” (tudo em segundos) e assumi, foi o melhor que fiz, entrei para a história da televisão em Portugal e no mundo, pois não há registo de tal coisa ter acontecido a nenhum jornalista, em nenhuma televisão. Eu, neste caso, sou único.

Zé Gabriel quaresma fica sem o pivô em directo (5:10 min.)


12) Como é lá em casa, uma jornalista da área da política, Carla Moita, outro ligado ao futebol. Há entendimento possível?

Eu conheci a minha mulher em 1985, pelo que nós tornámo-nos jornalistas muito depois disso. Já foi mais fácil separar as águas. Ela, trabalha na TVI (também) há uns 12 anos, e sempre como editora de política, por isso é complicado não levar trabalho para casa. Mas sim, tem que haver entendimento…

13) O seu filho Rodrigo já pede ao pai para ir assistir aos jogos de futebol?

O Rodrigo já tem onze anos. Joga futebol federado (parece o Saviola) há seis. É ele quem me pede para ir ao futebol e eu vou, vou ver os jogos dele, para o ver e sentir a sua alegria. Depois, vamos também ver os jogos do Benfica. São momentos únicos, depois dos jogos vamos comer o nosso bife, como dois bons amigos lampiões.

14) A Maria ou o Rodrigo, algum sente especial apetência pelo jornalismo? Gostava de ver um filho seu nestas andanças?

Nunca pensei nisso, como qualquer pai, gostava que eles fossem aquilo que quiserem. Apetência, penso que não sentem nenhuma. Tanto um como outro, estão muito habituados a estar na TVI, vêm cá desde sempre, estão habituados a ver os pais na televisão. É algo que para eles é normal. Ambos gostam de ver as minhas reportagens, mas não mais que isso. Quando os pais estão em directo, ou a apresentar alguma coisa, eles só vêem quando estamos longe há muito tempo e já sentem saudades, aí, vêem para matar saudades, não mais que isso. A Maria quer ser actriz e o Rodrigo jogador de futebol.

15) Como vê a actual situação económica do país? Acredita que ainda há muitas medidas de austeridade a ser postas em prática?

Nesta matéria, assumo-me como um revoltado. Penso que os líderes políticos, que estiveram no poder e na oposição, durante os últimos dez anos, deviam responder criminalmente. Sinto-lhes um asco tão grande que não vou responder a esta pergunta, mas ainda acrescento, o povo português, na sua maioria não mereceu que tivessem lutado pela liberdade. O povo é oprimido por meia-dúzia de homenzinhos com gravata. É criminoso o que fizeram à minha geração, à do meu irmão, à dos meus pais e dos meus filhos. É criminoso. Sou a favor da presença da Troika. Pelo menos assim não me sinto roubado gratuitamente, para sustentar uma elite sem respeito. Assim sou roubado, para limpar a porcaria que essa elite fez e continua a fazer, mas sem a sensação que lhes estou a alimentar os caprichos. Eu penso que Portugal tem solução, tivesse políticos decentes. Assim… (vejam a campanha eleitoral) gastamos alguns milhões com eleições, nós, que não temos dinheiro para pagar o IRS do MAI…Isto é de loucos e nós participamos como actores nesta alucinação de Sócrates, Coelho, Portas e afins... É revoltante, mas pelo que parece só eu me revolto. Tenho que tomar Valeriana para aclamar!

16) Como é que vê o jornalismo do século XXI? Acha que existe pressão política nos meios de comunicação social?

Pressão existiu sempre, não é de agora, nem é um fenómeno da era moderna. A questão não está na pressão, mas em deixarmo-nos pressionar, ou não. Falo de pressão exterior, porque há muitos tipos de pressão. Claro que há pressão política, também. O jornalismo tem que se adaptar a esta nova dinâmica. A Aldeia Global deixou de ser aldeia, as plataformas de comunicação evoluíram e agora uma notícia do outro lado do planeta chega-nos em segundos. A liberdade de expressão é à escala global, já não falamos para um público, mas para públicos. É uma dinâmica e por isso mesmo em constante mutação, penso que é uma questão de adaptação, nada fácil, mas possível. Antes assim!

17) Que conselhos gostaria de deixar aos futuros jornalistas deste país?

Quem sou eu para dar conselhos. Mas, posso deixar um, deixem a vaidade, a televisão, o aparecer, os decotes, deixem de querer ser apresentadores, sejam jornalistas, o que quer dizer, sejam responsáveis, cumpram o código deontológico (algo que muitos seniores não fazem) e lutem sempre, em primeiro lugar pelo direito inqualificável, que é o da liberdade de expressão e pensamento. Depois, cumprindo as regras da profissão, sejam felizes.

sábado, 21 de maio de 2011

ENTREVISTA EXCLUSIVA A PATRÍCIA MATOS, TVI



1) A Patrícia é ribatejana. Como foi crescer nessa zona do país?

Sim, sou ribatejana, natural de Santa Margarida da Coutada, a Sta. Margarida do Campo Militar. Vivi lá até aos meus 12 anos. Depois mudei para o concelho de Abrantes. Como já é Médio Tejo, já não é uma paisagem composta apenas de planícies. Crescer ali foi maravilhoso, das melhores coisas que tive na vida. Lembro-me de correr os cabeços com o meu pai à procura de um pinheiro que servisse como àrvore de Natal, do cheiro da terra molhada e dos regressos a casa depois da escola. Éramos poucos miúdos e eu sou filha única, era sempre uma festa.

2) Com que idade aprende a ler ? Lembra-se da sua professora primária. Como era ela?

Não recordo a idade mas sei que aprendi a ler muito cedo. Lia bem, não me enganava, fazia bem as pontuações, os meus primos achavam o máximo e a minha mãe não se cansava de me gabar. Tive duas professoras, na primária. Uma delas, a Dna. Justina, já tinha sido professora dos meus pais. Rigorosa! A prof. Glória era também muito exigente. Tinham ambas imenso trabalho comigo… era danada para a conversa!

3) Qual a história de encantar que marcou a sua infância, porquê?

Nunca me deixei levar por histórias de encantar, a sério. Lembro-me que gostava muito do Peter Pan, mas acho que não se pode chamar uma história de encantar…! Aquela fantasia da Terra do Nunca fascinava-me muito. Acho que todos queremos a ‘nossa’ terra do nunca. Não um sítio onde sejamos sempre crianças… mas o nosso mundo. E era isso que me entusiasmava- um mundo, uma ‘terra’ como eu queria!

4) Com que idade se apercebe que gostaria de ser jornalista

? Sempre o quis ser? ou nem sempre esse era o seu sonho?

Quando era miúda queria ser professora de inglês. Comecei cedo a estudar a língua e estava convencida que tinha futuro! Depois cresci, descobri outras coisas. A minha mãe tinha um amigo locutor de rádio que me disse que tinha uma boa voz. Nem fiz caso. Rádio? Que disparate! O ‘disparate’ virou caso sério. Comecei a fazer rádio por carolice aos 12 anos, numa rádio local. Depois, só depois, surge a paixão pelo jornalismo. Sempre na rádio, fiz programas de autor e noticiários… até entrar na faculdade. Depois o tempo escasseou… e apareceu a televisão!

6) Quem eram os seus jornalistas de referência durante a

sua adolescência? Porquê?

Lembro-me do José Rodrigues dos Santos, da Judite de Sousa, do Mário Crespo, a Luísa Fernandes, a Paula Magalhães, o Carlos fino. A imagem, o rigor, dei

xavam-me nervosa e entusiasmada ao mesmo tempo. Mas eu era mais rádio… o fascínio das vozes: o Sena Santos, o Adelino Gomes e, noutra vertente, dois Antónios: o Macedo e o Sala.

7) Onde se forma como jornalista?

Estudei no Instituto Politécnico de Portalegre, formei-me em

Jornalismo e comunicação. Eu e mais uns quantos colegas provámos que é possível vingar no mun

do profissional. Sem falsas modéstias. Lembro-me de alguém me perguntar se era ‘o Portalegre do Alentejo?’. Era, pois era. O curso deixou-nos muito preparados mas claro que só a prática nos dá tudo. Sentimo-nos muito orgulhosos por ter chegado a uma redacção e saber escrever uma notícia. Não temos poderes mágicos mas sabemos que a realidade é bem diferente. Ain

da durante o curso estagiei na Antena 1 e TVI e passei por 2 empresas de comunicação.

8) Qual foram os seus primeiros trabalhos no jornalismo?

Na rádio foram vários, não me lembro. Depois de terminar o estágio tra

balhei numa empresa de comunicação que tinha vários projectos de publicações: saúde, desporto, académica. Como estive no desporto, na Antena 1, estava mais confortável na área. Depois, passei por outra agência de comunicação onde escrevi sobre saúde. Essa foi uma área em que trabalhei bastante na TVI. Sei que no meu 2º dia de estágio em Queluz fui para o aeroporto com o repórter de imagem, esperar o corpo de uma português morto no Brasil. Dramático. Agosto. Horas a fio. Sol insuportável. Resistimos!

9) Lembra-se ainda do seu primeiro directo em TV. Que peça apresentou. Lembra-se?

Lembro. O 1º directo aconteceu exactamente um ano depois de ter en

trado para a TVI pela primeira vez, nessa altura ainda enquanto estagiária. Foi um directo de um incêndio no Belas Clube de Campo. Foi no Jornal Nacional, ainda não havia TVI 24. Acho que não correu mal… No estúdio, foi no dia 28 de Fevereiro de 2009, o TVI Jornal, as 14h.

10) Pivô ou repórter? Porquê?

Jornalista! Sempre! Enquanto jornalista preciso muito proc

urar, escrever e contar. Não faz sentido ficar só à espera que as notícias venham ter connosco para as comunicarmos. Faz sentido sermos nós a contá-las. E, de resto, um bom pivot é aquele que conhece a historia e a Históri

a. Que já esteve nos locais e sabe do que fala. E para isso é preciso trabalhar todos os dias. Informar e ser informado. Nada cai no colo. Não há sucesso sem trabalho. O estúdio dá-nos a postura que precisamos ter na rua, ensina-nos a ser disciplinados e mais formais. Hoje os pivots já são jornalistas e não vamos ser hipócritas: toda a gente sonha com o

lugar de pivot. Eu também sonhava mas mais nunca pensei que fosse uma realidade t

ão próxima!! Tenho um amigo que diz ‘hei-de estar a passar a rua, de bengala, e os meus olhos vão andar à roda à procura de uma história’. Nada mais certo!

11) Como foi dar a conhecer aos telespectadores a

residência oficial do Presidente da República?

Foi um trabalho muito engraçado. Um formato diferente, que ap

resentámos no Diário da Manhã. Pessoalmente, já conhecia o Palácio de Belém mas foi uma visita muito particular e muito agradável! Encontramos sempre coisas novas!

12) Lembra-se de alguma situação caricata em TV, que quando se recorda da-lhe vontade de rir, pelo acontecimento em si?

Várias… os realizadores esperam pelo final do jornal ou pela meteorologia para ‘aliviar um bocadinho’ e essas alturas são complicadas de gerir!! Eu consigo

mas nem sempre é fácil, há toda uma equipa a rir e nós temos de aguentar! São períodos muito longos, a concentração é máxima e há sempre qualquer coisa que falha. Lembro-me de ter um editor a canta

r os parabéns no meu auricular, durante o jornal, um assistente debaixo da mesa porque houve uma falha técnica, de ter trocado de camisa no meio do estúdio.

13) Para si, o que é ser jornalista?

É levantar pedras, mexer em papéis, acordar pessoas, fazer perguntas incómodas e não esperar as respostas. É respirar fundo, dormir nos intervalos do trabalho. É superar-se todos os dias, procurar mais, fazer melhor e ir mais além para contar aquilo que as pessoas ainda não sabem. Ensinaram há muito tempo que, independentemente do interesse que representam, todas as histórias são dignas e merecem, por isso, ser bem contadas.

Acredito que ser jornalista é quase como ser mãe: não ter horas, estar sempre disponível, sempre à procura do melhor momento e ter sempre uma palavra preparada. Na crónica do 2º aniversário do jornal ‘i’, Hugo Gonçalves dizia que «não é a mesma coisa ser jornalista e ser electricista. (…) Ninguém percebe de fusíveis e no entanto toda a gente comenta notícias. Ser jornalista é mais que um ofício, é uma tirania que

se escolhe.” Ser jornalista é difícil mas não trocava esta vida por nada!

14) 4 de Setembro de 2009. Que horas eram quando soube que seria a Patrícia a apresentar o Jornal Nacional de 6.ª, que até então tinha Manuela Moura Guedes na sua condução?

Nunca falei sobre este assunto. Já passaram quase 2 anos, já há algum distanciamento. Mas esta vai a ser a única vez. Sem me alongar… temos de recuar um dia.

Soube no final do dia 3 de Setembro.

15) Por quem soube que seria pivô nesse dia?

Fui convidada pela Manuela Moura Guedes. Perguntou-me se apresentava o jornal. Disse que sim. Fui convidada, não obrigada. Ao contrário do que se disse na altura.

16) Que misto de sensações a rodearam nesse momento e mais tarde às 20 horas em ponto, quando sabia que muitos portugueses queriam s

aber o que iria acontecer?

Aconteceu tanta coisa nesses dias que nem sei o que senti. Foi uma tarde muito complicada. Nervosismo, obviamente, e grande responsabilidade. O país inteiro estaria a ver o jornal naquele dia e a razão não era, naturalmente, por ser eu a apresentar.

17) Teve a oportunidade de falar com Manuela Moura Guedes após a apresentação do jornal? Em caso afirmativo, o que ela lhe disse?

Sim, falámos. A equipa do JN 6ªfeira estava à minha espera à po

rta do estúdio. A Manuela agradeceu o meu trabalho e eu agradeci o voto de confiança.

18) Como vê o TVI 24 no mundo do jornalismo?

Como uma potência emergente, assim como uma economia poderosa! Conheço bem o canal, ajudei ao nascimento. Está a dar passos pequenos mas sólidos e isso é o mais importante. Saímos em último lugar: lutamos contra o hábito, a História mas não desistimos, nunca! 2011 vai ser o ano do TVI 24.



domingo, 8 de maio de 2011

ENTREVISTA EXCLUSIVA A PAULO MAGALHÃES, TVI

Paulo Magalhães, encontra-se actualmente à frente na Edição das 10, no TVI 24, que conta com o comentário semanal de Luís Marques Mendes, às quintas-feiras.

Leia agora a entrevista exclusiva ao jornalista.

1) Como foi crescer em Lisboa?

-Aqui não há história, sou de Lisboa, nado e criado em Alvalade, numa altura em que por vezes nas Avenidas Novas ainda passavam rebanhos de ovelhas, o leite e o pão eram entregues à porta de casa e o Bairro de São Miguel, em Alvalade, parecia uma aldeia, com as crianças a brincar na rua, à solta, ao longo de todo o dia.-

2) Que brincadeira com os seus colegas guarda da sua memória de infância?

- As descidas de ruas mais íngremes em carrinho de esferas.

3) Desde sempre quis ser jornalista?

- Só na adolescência, quando optei pela área de Humanísticas se começou a desenhar essa hipótese; tenho um irmão mais velho que foi jornalista da Lusa e que me influenciou, embora sempre tenha preferido a Rádio como caminho.

4) Como inicia a sua ligação à rádio? Considera que a rádio é uma boa escola para quem posteriormente quer fazer televisão?

- Ainda no tempo das rádios piratas, havia no Instituto Superior Técnico a RUT, Rádio Universidade Tejo; aí, estando eu já a frequentar Comunicação Social na Uni
versidade Nova de Lisboa, tive com alguns amigos um programa de informação semanal chamado “Nevoeiro” e assegurávamos também os três noticiários diários da
“estação”; depois foi uma questão de sorte: durante o último ano de facu
ldade, foi criada a TSF, depois de um curso em que tive a sorte de ser dos que ficaram para arrancar com o projecto; éramos todos jovens, cheios de ideias, cheios de genica e, sob a batuta sábia do Emídio Rangel entre outros, fizemos uma Rádio diferente, de notícias, com Alma, que rapidamente se impôs; desses tempos datam muitas das melhores amizades, com gent
e que está hoje espalhada um pouco
por vários
órgãos de comunicação social. Passados uns anos, fui com a Elisabete Caramelo fundar a TSF Porto, cidade onde vivi cerca de ano e meio, e onde fui convidado para a Rádi
o Renascença, uma grande Casa, onde aprendi imenso, viajei pelo Mundo e se me entranhou o tal “bichinho” da Política.
A Rádio foi para mim a MELHOR escola de jornalismo, aprende-se a es
crever como se fala, porque a linguagem de rádio tem de ser oral, a ser sintético, a ir log
o ao mais importante e também me tem ajudado nesta nova etapa na TVI.

5) Acredita que uma voz com sonoridade tem de ser bem trabalhada, ou é algo inato, ou tem ou não te tem?

- A voz é algo inato, nasce connosco, mas pode sempre ser melhorada em termos de colocação e entoação; agora o que pode e deve ser trabalhada é a dicção, a articulação das palavras, a respiração, e há excelentes profissionais que nos podem ajudar nessa matéria.
6) Como surge a oportunidade de vir para a TVI?

- A oportunidade foi um convite da Constança Cunha e Sá, então Editora de Política da TVI, pouco antes do arranque do TVI24, há cerca de dois anos. É alguém de quem sou amigo e que admiro há já muitos anos, e veio “desinquietar-me” à Renascença onde eu de resto já era Editor de Política; ainda estive na dúvida, mas depois pensei que era um bom desafio, uma experiência nova, e pronto, cá estou.

7) Vemos o Paulo como pivô da informação no jornal da 10, no TVI 24. Como é um dia normal da sua rotina, até à apresentação do jornal?

- Chego à TVI por volta da hora do almoço e preparo as entrevistas e os debates do dia, depois de ler os jornais; como a actualidade é muito mutável e variada, e ninguém sabe tudo sobre tudo, tenho muito que estudar. À hora do Jornal Nacional é tempo da caracterização, saio de Queluz por volta da meia-noite.

8) Acha que um jornalista consegue desligar-se completamente da sua profissão, ou é muito complicado, mesmo em férias?

- Completamente nunca, mas até por causa de filhos, mulher e família, além da própria sanidade mental, faço por “esvaziar” a cabeça durante as férias e por desligar a ficha, leio menos jornais, televisão vejo só mesmo o essencial.

9) Reportagem no terreno ou pivô da informação? Porquê?

- Uma coisa não impede a outra, são acumuláveis e até é bom que o sejam; os pivôs correm o risco de não só perder fontes de informação, como também de se alhearem da vida real, de se limitarem apenas ao jornalismo sentado; de resto, o que gosto mesmo mais de fazer são as campanhas eleitorais e os congressos partidários, tudo cheio de adrenalina e notícias, que puxam muito mais por nós do que o trabalho em estúdio.

10) É adepto das redes sociais? Em que circunstâncias?

Sim, mas não obcecado; são boas fontes informais de informação e servem por vezes para reatar ou manter laços com quem está longe.

11) Qual foi a reportagem que o mais marcou até ao dia de hoje, porquê?

- A reportagem que mais me marcou não tem nada a ver com política; há alguns anos a Argélia estava em guerra civil, os islamitas que tinham sido ilegalizados, desenvolviam acções terroristas por todo o pais e o governo militar também não era flor que se cheirasse; fui o primeiro português a aterrar em Argel, percorri o pais, ouvi e contei histórias d
uras e cruéis mas que me solidificaram muito quer pessoal quer profissionalmente, e vi pela primeira vez gente morta á minha frente nas ruas.
De outro ponto de vista (e porque as reportagens foram muitas e marcantes) tive o privilégio de estar em Roma quando morreu o Papa João Paulo II; cheguei dois ou três dias antes da sua morte, fiquei até á eleição de Bento XVI; e assisti às emoções, á tristez
a, ao milagre da fé de milhares e milhares de pessoas que foram à Praça de S. Pedro para se despedirem do agora Beato João Paulo II.

13) Acredita que o jornalismo consegue ser independente a 100% da política e do Estado? Porquê?

- Sim, deve ser, tem de ser; é essa a raiz da própria profissão, a credibilidade cai de pantanas se se quebrar o dever de isenção; agora, há formas de pressionar jovens jornalistas, precários e mal pagos como o são cada vez mais nos nossos dias, por forma a que nem sempre todos os pormenores da historia sejam contados; há as represálias através do corte na publicidade que alimenta os mass media privados, há as simpatias excessivas, tudo, ou q
uase tudo legitimo da parte “deles”; é uma luta que deve ser travada e ganha pela profissão.

14) Como vê a nova equipa de directores da informação da TVI, José Alberto Carvalho e a Judite de Sousa?

- Com enorme esperança e optimismo, são profissionais de mão cheia, com ideias e um rumo, que pensam a Televisão alem do imediato e que de resto, desde que cá chegaram, já deram provas e marcaram, no caso da Judite, a própria actualidade.

15) Como é que foi entrevistar a pintora Paula Rego?

- Acima de tudo, muito divertido; é uma senhora que não tem pa
pas na língua, que deu já todas as provas que tinha de dar, que diz tudo o que pensa; é uma grande figura portuguesa, que rompeu as fronteiras de uma mulher nascida durante o Estado Novo, que pinta com alma os fantasmas dela e nossos, e que ao mesmo tempo guardou uma ingenuidade quase infantil e muito pura na maneira como ve o mundo.

16) Como é que vê a actual conjuntura económico-política do nosso país?
Costuma reunir-se com o comentador das quintas-feiras, Luís Marques Mendes para falarem do que abordaram no comentário semanal, ou tudo surge naturalmente?

- Com o Dr Marques Mendes já estamos em velocidade de cruzeiro: no inicio, há mais ou menos um ano, costumávamos reunir todas as semanas ás segundas feiras, para analisar os temas e escolher os que iriam ao programa; depois falavamos mais duas ou três vezes por telefone; hoje em dia, é mais só por telefone que acertamos os pormenores, temos longas conversas e por vezes discussões sobre os ângulos pelos quis se deve pegar na actualidade, sobretudo sobre os “mais” e os “menos” da semana…
Quanto á situação do pais, é grave e preocupa-me, sobretudo pelos meus filhos e pelo futuro deles e do país, mas também sei que temos mais de oito séculos de história e quero crer que amanhãs mais sorridentes nos aguardam.

18) Paulo Magalhães, Paula Magalhães: afinal é só os nome que os une ou também uma grande relação de amizade?

- Conhecemo-nos apenas quando entrei para a TVI, não há qualquer laço familiar que nos una, mas costumamos brincar com a coincidência. Recebemos correio e telefonemas trocados todas as semanas e até já falámos em ter um programa “Magalhães e Magalhães”, que com a minha inteligência e a beleza dela, seria um sucesso de certeza…

19) Que conselhos gostaria de deixar aos futuros jornalistas deste país?

Não dou conselhos, cada um é si próprio e a sua circunstancia, mas sei que a vida de jornalista, e sobretudo de jovem jornalista, é hoje muito mais complicada do que quando eu comecei; o mercado não chega para tanta oferta, há muita exploração dessa mão-de-obra barata, é uma vida dura em que é preciso persistir.

terça-feira, 26 de abril de 2011

JOSÉ MANUEL ROSENDO, EM ENTREVISTA EXCLUSIVA

O jornalista e repórter de guerra, José Manuel Rosendo, falou da sua experiência profissional.
Leia a entrevista ao jornalista.


1) O que é ser jornalista de guerra?

Ser jornalista num cenário de conflito ou em qualquer outro
sítio, é exactamente igual. As regras são sempre as mesmas. O que muda num cenário de conflito é a perigosidade e por isso devemos ter algumas cautelas. Gosto de dizer, até para desmontar um pouco o mito do jornalista de guerra, que um jornalista não é um “Indiana Jones”.É certo que há situações de risco que são impossíveis de controlar. Por mais que façamos um plane
amento ponderado e cauteloso, há factores que nos escapam totalmente. Em regra, uma situação de conflito armado significa ausência de Lei e de Ordem. São frequentes os actos de banditismo e de condições difíceis de trabalho: dificuldade de comunicações, falta de locais para pernoitar, alimentação precária, etc…

2) O Jornalista que faça um directo em pleno cenário de guerra, corre ou não perigo de vida?

Normalmente, os directos são feitos em locais relativamente seguros, quando feitos a partir dos locais onde se instalam as agências que têm as ligações por satélite. Há casos em que as equipas de televisão utilizam o satélite portátil e nesse caso podem, de facto, fazer o directo de qualquer sítio. O
perigo existe sim, quando antes desse directo andamos no terreno a ver o que está a acontecer e a captar sons e imagens para podermos transmitir essa informação. Aí encontramos de tudo. Gente amigável e outra gente que nos detesta; gente agressiva; e também encontramos quem nos ofereça alimentos e, por vezes até dormida. De facto, é verdade que um tiro perdido nos pode atingir. Mas temos consciência disso. O risco deve ser assumido, embora façamos tudo para o evitar. Mas a guerra não deve ser um espectáculo. O importante é a i
nformação e não adiantará grande coisa (em termos informativos) estar em directo e a olhar pelo canto do olho para ver se algum perigo se aproxima. Isso pode ser mostrado através de imagens captadas anteriormente, editadas e depois transmitidas. Fazer jornalismo não é o mesmo que mostrar as aventuras do jornalista.

3) O antes, o durante e a pós-participação num cenário de conflito armado. Que sensações se intercalam no jornalista?

Há adrenalina. Em casos de conflito armado é impossível n
ão haver. Há risco e portanto a adrenalina aumenta. E já agora, não convém escamotear: também há medo. Por vezes há. Tal como há emoção, porque a guerra é uma realidade que deixa um rasto marcante, nomeadamente em termos de vidas perdidas. É impossível fugir a isso, mas é importante controlar as emoções. Depende muito da preparação que cada um tem para enfrentar este tipo de situações, sendo que podemos sempre ser surpreendidos por algo inesperado. Os jornalistas não estão no terreno para ter emoções. É verdade que são seres humanos, mas já sabem ao que vão. A nossa missão é informar
e para isso temos que manter a cabeça fria e não nos deixarmos arrastar pelas emoções. Ser frio e ter distanciamento em trabalho não significa ausência de sentimentos, emoções ou valores, nem significa que o jornalista não seja humano. É uma necessidade que, se não for cumprida, coloca em risco a missão que levamos para esses cenários de conflito. Pode parecer contraditório mas ao mesmo tempo que temos de mergulhar na realidade que temos que relatar, temos em simultâneo que não nos deixar sufocar por ela.

Depois, no regresso, cada um tem que saber gerir as emoções que traz. Muitas vezes passamos duma situação de elevado stress para outra de calma absoluta proporcionada por uns dias de descanso. Há uma sen
sação de vazio. A experiência ajuda a ultrapassar essa sensação de que devíamos estar noutro sítio.

4) A «guerra das audiências» pode por em causa o trabalho do jornalista num cenário de guerra?

Um conflito armado é um palco privilegiado para a guerra da informação. É preciso muito cuidado com a informação e com as respectivas fontes. Há sempre rumores para todos os gostos. O stress que atinge os jornalistas também toca os protagonistas e isso reflecte-se na informação que passam.

Há também quem conheça bem o valor da informação e tente utilizar os jornalistas. Acontece em situações de ausência de conflito, quanto mais em situações de guerra.

Muitas vezes a dificuldade de acesso à informação dificulta a interpretação do que acontece no terreno, por isso é importante manter um contacto frequente com a redacção. Quando isso é possível.

Seja como for, ao jornalista pede-se que relate o que vê e não que faça análise política ou militar. Pode fazê-lo, mas não é esse o objectivo de alguém que vai para um local de conflito fazer reportagem.